A Mestre e a Chamada do Mestre

Quando ela chegou na classe pela primeira vez, foi logo soltando uma pergunta:  "-Quem sabe o que é sondagem? "  Ao ver nossos ...

Quando ela chegou na classe pela primeira vez, foi logo soltando uma pergunta: 
"-Quem sabe o que é sondagem?"  Ao ver nossos olhinhos desconcertados, continuou: "-Não sabem?! Pois vamos fazer uma sondagem.


E foi assim, de sondagem em sondagem, que começou a enriquecer nosso vocabulário em um mundo repleto de fantasias e descobertas infinitas.


Entre 1974 a 1978, ela se revesou com o professor Jeremias, no ensino da Língua Portuguesa e também nos ensinava Francês.
 A escola era estadual e se localizava em uma dessas inúmeras periferias que rodeiam meu Recife.

 Seu nome, Maria Campos da Luz. Mas, mais do que o ensino em si, Professora Maria Campos me ensinou a aprender, o que a meu ver, é um dos maiores feitos de um verdadeiro mestre.

Foi surpreendente, fascinante e confortante ouvi-la dizer que ninguém nasce "sabendo" e que íamos aprender como um bebê que começa a dar os primeiros passos.

A cada um,deu um novo nome, o qual parecia ser típico da França e nos ensinava a pronúncia de forma contínua e paciente. Eu passei a me chamar "Simonne". Eu lembro que fiquei toda feliz.
Tudo é uma festa, quando se é criança.

Professora Maria Campos era baixinha, tinha traços bem delicados e cabelos bem pretinhos e lisos, que, ora cortava bem curtinho, deixando a nuca à mostra e ora, os deixava curtos na altura do queixo, ocasião em que usava franja.

Não esquecerei o último dia de aula. Minha professora nos ensinou uma música em francês, a qual traduzida quer dizer: " Os nossos amigos dos tempos passados, viverão em  nossos corações."
                                  "Jamais serão esquecidos, os amigos dos tempos passados".

E a melodia era daquela música, bem conhecida nossa que diz: "Adeus amor, eu vou partir"

Lembro bem da forte emoção que senti, aos 14 anos, sabendo que, talvez, nunca mais veria meus coleguinhas e minha querida querida professora.

Emoção maior talvez tenha sido, depois de quase 40 anos ter reencontrado uma dessas minhas coleguinhas, A Lourdes. Assim sem querer, na cidade, durante um curso de corte e costura. Passamos um tempo conversando depois da aula e...

...quando cheguei em casa, fiquei pensando de onde conhecia aquela "menina".  E Lourdes me disse que o mesmo aconteceu com ela.

No dia seguinte, nós duas, quase que, ao mesmo tempo, nos reconhecemos, nos abraçamos, cantamos a música em francês. Foi muito lindo!

E não parou por aí, não! Descobrimos que moramos bem próximas, no mesmo bairro! A uns trezentos metros de distância. Quando dá, vamos à pé para casa uma da outra e já é minha amiga no face e tudo. Não nos encontramos mais vezes, porque tanto eu quanto Lourdes, somos muito ocupadas. Casa, marido e filhos! É muito trabalho, mas é recompensador!

A última notícia que tivemos de nossa querida professora, foi a de que, infelizmente não se encontra mais entre nós. Foi vencida pelo terrível câncer de mama. Esse mal que aflige e que, vez por outra pega tantas mulheres de surpresa nesse nosso país.

Ela que tantas chamadas fez aqui, foi atender à chamada do Mestre!






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