Os Dois Sonhos do Professor Jeremias

Véspera do dia dos professores e eu não poderia deixar passar uma data tão memorável em branco. O primeiro de quem tenho lembrança mais viva...

Véspera do dia dos professores e eu não poderia deixar passar uma data tão memorável em branco. O primeiro de quem tenho lembrança mais viva é o professor Jeremias. E foi também o primeiro e mais forte exemplo de integridade e honestidade que conheci, pois foi capaz de reprovar a própria filha, provando que, justiça para ser boa precisa começar em casa. 


Professor Jeremias tinha dois sonhos: O primeiro era ser reitor da Universidade Federal de Pernambuco e o segundo, um pouco mais audacioso era ver um de seus alunos chegar a presidência da República ou, no mínimo, ter uma profissão que conferisse destaque e visibilidade na sociedade.

Ele sempre dizia: "-Vinícios, estude para ser um Vinícios de Morais"
                             "-Leonardo, estude para ser um Leonardo da Vince."
                             "-Estudem! Estudem! Quem avisa, amiga é. Estou avisando mais de uma vez,                   portanto, estou sendo mais do que um amigo. 

Tudo parecia bem, até o dia em que observei professor Jeremias, chegar na classe para dar aula, vestindo duas camisas ao mesmo tempo.  Algo para se estranhar, numa cidade como meu Recife, onde o sol sempre foi forte e inclemente. E ainda mais, num colégio pobre de alguma periferia esquecida, onde não se fazia a menor ideia de existência de ar condicionado, que, na época, (uns 30 e tantos anos atrás), deveria ser um luxo para poucos. 

Pois bem, o suor escorria em bicas pelo rosto do professor, deixando as duas camisas totalmente ensopadas. 

Ele era alto, forte, meia idade. Carregava sempre uma pasta e estava sempre apressado.

O primeiro livro que li, foi recomendado por ele: Inocência, de Visconde de Taunay,  e em seguida, Dom Casmurro de Machado de Assis. A partir daí, tomei gosto pela leitura e só não li mais, pela dificuldade que sempre marcou minha vida (mas não me queixo. Cada qual, tem suas próprias dificuldades).

Lia o que me caia nas mãos e me caía aqueles livrinhos, chamados "de bolso", que eram os mais acessíveis. Vendiam-se nas bancas. "Júlia", "Sabrina" e "Bianca". Li muito. Acho que é por isso que fiquei meio romântica.

Quando professor Isaías chegou na classe pela primeira vez, dizendo: "-Estudem! Nunca vi ninguém enlouquecer de tanto estudar." Eu comecei a me assustar!

Mas o que me assustou de verdade foi quando ele disse: "-Eu só queria ter um machado, para partir a cabeça de vocês ao meio e colocar um livro". Ele dizia isso na maior seriedade e ainda gesticulava mostrando como supostamente faria isso.

Eu tinha uns 13 anos e isso era muito assustador! Eu chegava a ver o professor com o machado na mão. Nossas cabeças partidas com um livro ao meio e o sangue rolando no chão. 

Mas o importante foram os ensinamentos que ele passou. A paixão pelo ofício.
Concordância Verbal e Nominal. Sintaxe de Regência. Pretérito perfeito e mais que perfeito e todas aquelas regras, com suas exceções, próprias da nossa Língua Portuguesa.

O livro didático foi Português Fundamental, de Domingos Paschoal Cegalla e mais alguns, emprestados pelo governo, o qual deveria ser entregue no fim do ano, como A Escola de Tio Carlos. Foi muito bom relembrar tudo isso.
 

Quanto aos dois sonhos do professor, infelizmente não viveu o suficiente para ver nenhum concretizado. Não chegou a ser reitor da universidade e, que eu saiba, nenhum de seus alunos chegou a ter notoriedade na sociedade.  Mas creio que todos se tornaram cidadãos e cidadãs de bem, contribuindo, cada um a seu modo, para o engradecimento de nosso país. Assim espero.


Bem, por hoje é só! Um abraço e fiquem com Deus!




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